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Agilidade versus qualidade: como realizar a Copa do Mundo

Data: 25/02/2010
Fonte: Confea
Redator(a): Beatriz Leal

Obras para a Copa do Mundo de 2014 devem ser entregues até 31 de dezembro de 2012.

A Copa do Mundo acontece em 2014, mas o Brasil já hospeda a Copa das Confederações em 2013. Com esse calendário, o ministro dos Esportes, Orlando Silva, ressaltou o prazo que as cidades-sede dos jogos têm para apresentar as obras de estádios e infraestrutura: 31 de dezembro de 2012. Para isso, o ministro estipula que as obras devam ser iniciadas até 1º de março próximo. O assunto foi debatido no painel “A execução de obras públicas e a Copa de 2014: como conciliar agilidade, qualidade e controle”, que ocorreu durante a tarde desta terça-feira (23/2), no 5º Encontro de Lideranças do Sistema Confea/Crea.

Aliado a assunto discutido no primeiro dia do evento - ética na área tecnológica -, o painel contou com oito expositores que tentaram averiguar qual a melhor forma de se concluir as obras da Copa do Mundo dentro do prazo e do orçamento estipulados. Esse é, na opinião do ministro dos Esportes, o maior desafio do planejamento da Copa: aliar preço adequado com agilidade adequada. Orlando Silva defendeu que, para que isso aconteça, devem ser superados dois desafios gerenciais. O primeiro é a seleção adequada de projetos. O segundo é o monitoramento justo dos projetos, ou seja, o acompanhamento de prazos e orçamentos.

“No Brasil não faltam recursos para que as obras sejam implantadas. Falta regulamento que desburocratize os procedimentos, claro, sem deixar de garantir a transparência”, afirmou Orlando Silva, para quem é necessária a implantação de um sistema gerencial que acompanhe todas as ações da Copa e que permita que a sociedade também acompanhe os processos. “Temos que conciliar agilidade, eficiência, transparência e controle. Se não, geram-se desgastes tanto para a administração pública quanto para a opinião pública”, disse.

Apesar de estipular que as obras para a Copa sejam iniciadas em 1º de março (no máximo), o ministro dos Esportes disse ter alertado todas as cidades-sede sobre o risco de se realizar as obras de forma rápida. “A bola está com as cidades”, afirmou o ministro.

“Planejar é pensar antes”
Também presente ao painel, o presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva de São Paulo (Sinaenco-SP), José Roberto Bernasconi, defendeu a importância do projeto executivo de engenharia e arquitetura, ou projeto completo detalhado, como ele mesmo definiu. “O projeto completo é o elemento essencial para conciliar agilidade, qualidade e controle nas obras públicas”, afirmou. “É preciso investir em planejamento. Não é perda de tempo, como alguns pensam. Planejar é pensar antes”.

De acordo com Bernasconi, a partir de um planejamento sério é fácil executar uma obra, atendendo seus prazos e mantendo o orçamento. “Um projeto completo contempla plantas, especificações técnicas dos materiais, quantitativos dos materiais, que irão embasar o orçamento, etc”. Para ele, um projeto completo de engenharia significa compromisso com segurança e economicidade, além de maior durabilidade. Bernasconi defende que o ideal é contratar o projeto um ano ou um ano e meio antes da previsão do início da obra. “Isso é planejamento. Isso é ser sério”.

Bernasconi completou que o planejamento começa a partir do terreno, da sondagem. “Contratam sondagem por pregão. Recebem-se sondagens falsas! Isso é perigosíssimo!”, ressaltou, ao defender sua opinião contrária à contratação de obras e serviços de engenharia e arquitetura por meio de pregão. “Quando a administração pública contrata por pregão, ela descumpre o princípio da eficiência previsto na Constituição”, concluiu.

“Não podemos chegar à escolha entre qualidade e agilidade”
Nos mesmos moldes do presidente do Sinaenco-SP, Roberto Messias, presidente do Ibama, defende o planejamento e a qualidade dos projetos. “Se o projeto é de má-qualidade, não podemos contratar”, disse. Durante o painel, Messias defendeu que durante o planejamento da Copa não se pode chegar à “escolha de Sofia” de ter que decidir entre qualidade e agilidade.

Para Messias, a Copa é uma oportunidade de mostrar para os outros países que o Brasil sabe construir sem matar as espécies. “Vamos re-estruturar, ‘re-engenheirar’. Vamos fazer ambientes que serão impactados positivamente”, afirmou. Para isso acontecer, defende o presidente do Ibama, é preciso resgatar a cultura do planejamento. “Não está na nossa cultura trabalhar dentro do prazo estipulado”, disse.

Re-estruturação urbana
Com um ponto de vista de dentro do Sistema Confea/Crea, o presidente do Crea-BA, Jonas Dantas, enfatizou o papel do profissional diante do evento da Copa do Mundo. De acordo com Dantas, os profissionais têm o papel de debater sobre a questão da sustentabilidade do espaço urbano. “A re-estruturação urbana é motivada por grandes eventos. Esses grandes eventos são necessários, oportunos, trazem receitas, mas não são eles que devem pautar a agenda de desenvolvimento do país”, defendeu. O presidente do Crea baiano ainda afirmou que o Sistema Confea/Crea vai se organizar para contribuir nos debates das construções dos estádios, da mobilidade e da sustentabilidade econômica. “Nós temos a responsabilidade de promover esse debate, para levar mobilidade, acessibilidade e qualidade de vida para a sociedade”, afirmou.

Outro presidente de Crea presente ao painel foi Agostinho Guerreiro, que está à frente do regional carioca. Na ocasião, ele explanou sobre o treinamento que o Crea-RJ promoveu sobre diretrizes básicas para manutenção e prevenção predial em estádios de futebol, resultante de uma cooperação técnica entre Creas, Confea e Ministério dos Esportes. “80 profissionais da área tecnológica foram treinados e serão cadastrados pelo Ministério dos Esportes para realizarem vistorias em estádios de futebol”, contou. A opinião de Guerreiro quanto à organização da Copa é de que os planejamentos de cada cidade-sede a respeito de transporte coletivo, infraestrutura, etc, ainda não estão claros. “Ninguém tenha dúvida de que a Copa vai acontecer e de que será um belíssimo evento. A questão é: a que custo?”, questionou o presidente do Crea-RJ diante do debate sobre transparência em obras púbilcas.

“Teremos obras sem licitação”
O diretor administrativo do Instituto Brasileiro de Auditoria de Obras Públicas (Ibraop), Pedro Jorge Rocha de Oliveira, alertou para o fato de que, a dois anos da entrega das obras, os projetos da Copa ainda não estão prontos. Na opinião de Rocha de Oliveira, haverá obras sem licitação e sem orçamento, feitas de última hora. Para ele, uma maneira de evitar essa situação é o profissional se conscientizar de seu papel ético e não colocar seu nome em projetos mal feitos. “Valorizem seus nomes e suas profissões”, afirmou.

O Ibraop congrega profissionais da engenharia e da arquitetura funcionários de tribunais de contas de todo o país. De acordo com o diretor administrativo do Instituto, o Estado negligencia o engenheiro e o arquiteto há três ou quatro décadas, terceirizando sua área técnica e contratando empresas de consultorias. “Hoje, os órgãos públicos não têm condição de avaliar projetos e orçamentos de licitação. Não há pessoal para planejamento, não há fiscais capacitados para fiscalizar obras rodoviárias, não há pessoal capacitado nas comissões de licitação... Os órgãos não conseguem elaborar seus próprios editais de licitação. Dessa forma, fica impossível executar as obras eficientemente, principalmente com a falta da cultura de projetos completos”, explicou, ao se referenciar à palestra de Bernasconi, sobre a importância do projeto de engenharia completo e detalhado. Para ele, é necessário trabalho redobrado para que não haja necessidade de deixar de lado processos licitatórios. “Temos que trabalhar dia e noite para concluirmos todas as etapas. Não concordamos em pular etapas”, defendeu.

Brasil prevê 500 mil turistas estrangeiros
De acordo com estimativa do Ministério dos Esportes, o Brasil receberá cerca de 500 mil visitantes estrangeiros durante a realização dos jogos da Copa do Mundo. Para o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, Paulo Safady Simão, a Copa é a oportunidade de o Brasil mostrar para o mundo suas marcas. “Não podemos deixar de criar uma marca Brasil. Temos que aproveitar esse país e projetá-lo. Por mais longínquo que isso pareça, não podemos perder esse foco”, disse. O ministro dos Esportes, Orlando Silva, concorda que essa é uma oportunidade de promoção do país. “Serão 71 mil horas no ar em 500 redes de televisão. É a hora de mostrar que o Brasil é um país democrático, economicamente estável e moderno”, afirmou o ministro.

Acessibilidade
Também presente ao painel, a presidente do Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência (Conade), Denise Costa Granja, pediu a todos os participantes especial atenção para a inclusão das pessoas com necessidades especiais quando o assunto for infraestrutura urbana. “Peço que o item ‘acessibilidade’ seja sempre contemplado quando o Confea for cobrar transparência e ética do Governo”, ressaltou. Na oportunidade, o presidente do Confea, Marcos Túlio de Melo, assinou termo de adesão à Campanha Nacional de Acessibilidade do Conade, intitulada “Siga essa ideia”. A partir da assinatura, o Confea deve colaborar com a elaboração de programas para que portadores de deficiência possam ter plena utilização dos espaços públicos, além de procurar conceder visibilidade dos propósitos da campanha quando tiver oportunidades de relacionamento com a mídia.


 


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