Peixe surge como alternativa de renda para agricultores familiares do sertão

Utilizando um sistema de criação conhecido como sisteminha, o piscicultor Anderson Amorim tem a expectativa de produzir 300 kg de tilápia neste primeiro ciclo de produção, mesmo tendo apenas três tanques pequenos que servem de criadouro.| Foto: Rogério Machado/Gazeta do Povo

 

Nos 30 hectares de terra que possui no município de Altos, no Piauí, o produtor rural Anderson Linhares de Amorim e a esposa, Joseane, cultivam de tudo um pouco. Ali tem arroz, milho, feijão, mandioca e caju – só para citar algumas culturas presentes na propriedade, localizada dentro do assentamento do Incra Santa Bárbara, onde vivem outras 25 famílias. Em meio a tanta diversidade, uma nova atividade está despontando e se apresentando como uma alternativa bastante viável para complementar a renda dos produtores da região: a piscicultura.

Utilizando um sistema de criação conhecido como sisteminha, o casal tem a expectativa de produzir 300 kg de tilápia neste primeiro ciclo de produção, mesmo tendo apenas três tanques pequenos que servem de criadouro. “Apesar de o tempo ser curto e eu ser apenas um, essa semana já comercializei 90 kg de peixe. Então vejo que tem uma demanda grande pra mim”, comenta Anderson.”

Ele vende a produção toda na cidade, além de ser uma espécie de mascate da região, vendendo de porta em porta tudo o que produz e um pouco mais. “O incrível é que as pessoas se encabulam [se surpreendem]: ‘rapaz, você vende até m*!’ E eu digo: ‘pode ter certeza que eu vendo’”, diverte-se o agricultor, que coleta e comercializa o esterco do gado criado pelos vizinhos. Todo esse trabalho fica a cargo dele e de Joseane. Apenas na produção de cajuína (o suco clarificado do caju) – sim, eles produzem isso! – o casal conta com ajuda de dois funcionários.

No Piauí, as atividades ligadas à aquicultura estão presentes em 1.682 estabelecimentos de agricultura familiar, segundo o IBGE. Foto: Rogério Machado/Gazeta do Povo

 

Francisco Guedes, diretor-geral do Emater do Piauí, explica que a função maior do sisteminha é dar escalonamento à produção, disponibilizando semanalmente um alimento saudável e de qualidade. “Ele dispensa o aerador nos tanques, porque é pequeno. O filtro presente no sistema transforma a ureia da urina dos peixes em nitrogênio, que é importante para as plantas. Por isso é feito o reuso dessa água, que serve para adubação.”

Segundo Roberval Gabriel de Albuquerque, extensionista da Emater em Altos, um sisteminha com três tanques proporciona uma renda mensal de R$ 1,6 mil. “É um sistema simplificado de renovação da água dos tanques pensado para o pequeno produtor”, sintetiza. A água que abastece os criadouros vem de um poço artesiano dentro da propriedade.

No caso de Anderson e Joseane, todas as atividades produtivas se integram na propriedade, beneficiando umas às outras. As fezes dos peixes, por exemplo, adubam as árvores frutíferas. A borra do coco, por sua vez, é usada na ração dos suínos e a palha do arroz serve para forrar o aviário. “Pretendo que cada metro esteja produzindo alguma coisa. Se eu vivesse só do arroz e do feijão eu teria renda só uma vez por ano”, afirma Anderson.

Joseane e Anderson, além da piscicultura, também plantam arroz, milho, feijão, mandioca e caju – só para citar algumas culturas da propriedade da família, localizada dentro do assentamento Santa Bárbara, em Altos (PI). Foto: Rogério Machado/Gazeta do Povo

 

No Piauí, as atividades ligadas à aquicultura estão presentes em 1.682 estabelecimentos de agricultura familiar, segundo o IBGE. Em 2017, o setor movimentou R$ 10,3 milhões no estado. A tilápia é a espécie preferida, sendo cultivada em 470 propriedades.”

Entre essas propriedades está a do maranhense Elias Vito da Cruz, policial militar aposentado que está há 15 anos produzindo peixes em Nazária (PI). Ele e a esposa têm uma propriedade de quatro hectares às margens do Rio Parnaíba com capacidade para produzir duas toneladas de peixe ao ano, mas que atualmente só produz metade disso. São tilápias, tambaquis e, mais recentemente, pangas criados em 11 tanques.

“A nossa região é muito rica em água, água rica em oxigênio, excelente para criação do pescado”, resume Cruz, que também é presidente da Associação dos Aquicultores do Município de Nazária. Segundo ele, o maior gargalo dos piscicultores da região está na hora de vender o peixe. “Eu teria capacidade de produzir mais, porém não tenho para quem vender por um preço que seja justo. Hoje para se produzir 1 quilo de pescado nessa região você não gasta menos do que R$ 3,5. E para vender peixe in natura está muito difícil, ele precisa ser beneficiado. E a energia elétrica aqui custa caro”, afirma.

O grosso da produção dos piscicultores da associação é vendido para atravessadores, outra parte diretamente para os consumidores e pouca coisa para os programas governamentais, que compram o peixe para abastecer os programas sociais. Atualmente, está sendo licitada uma estrutura para processar o pescado na região, o que futuramente deve ajudar a melhorar o preço final do produto.

Elias Cruz, de Nazária (PI): “Eu teria capacidade de produzir mais, porém não tenho para quem vender por um preço que seja justo”, diz o produtor. Foto: Rogério Machado/Gazeta do Povo

 

Mas para Leonardo Rocha, engenheiro agrônomo da Secretaria de Agricultura, Abastecimento e Meio Ambiente da Prefeitura de Nazária, há também a necessidade de os produtores melhorarem os tratos culturais da criação. “Existem muitos tanques que estão fechando porque não é só enchê-los de água e colocar os alevinos. A produção acaba sendo baixa e muitos produtores acabam desistindo”, observa. Entre essas falhas está, segundo ele, não fazer a aeração dos tanques e extrair os peixes fora da época adequada para o abate.

Segundo Francisco Guedes, do Emater-PI, o instituto está iniciando um trabalho em parceria com a prefeitura para ampliar a qualidade da extensão rural no município de Nazária. “Os problemas existem, mas vamos entrar com a assistência técnica para melhorar isso daí”, afirma.

Na opinião do engenheiro agrônomo Raimundo Ulisses de Oliveira Filho, presidente do Crea-PI, os produtores precisam se conscientizar da necessidade de buscar o profissional para dar acompanhamento adequado à sua atividade. “No caso do agricultor familiar, existem inúmeras variáveis que influenciam na produção, até a parte afetiva afeta no processo. O profissional que presta assistência técnica tem de estar ciente disso, porque senão o produtor não vai confiar que aquele profissional vai trazer melhorias para a sua atividade”, pondera.

 

 

 

 

Produção de coco babaçu na propriedade de Anderson e Joseane Amorim em Altos (PI). Foto: Rogério Machado/Gazeta do Povo Por João Rodrigo Maroni, especial para a Gazeta do Povo. Fotos: Rogério Machado

 

Por João Rodrigo Maroni, especial para a Gazeta do Povo. Fotos: Rogério Machado

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