Produtores abraçam cooperativismo para impulsionar criação de cabras

 

Francisca, de apenas 23 anos, é presidente da Ascobetânia – Associação de Criadores de Caprinos e Ovinos de Betânia do Piauí. Segundo ela, graças ao associativismo os produtores da região conseguiram organizar a comercialização dos animais e melhorar a renda.| Foto: Rogério Machado/Gazeta do Povo

 

A rusticidade natural das cabras e ovelhas e sua capacidade de sobrevivência em ambientes com pouca água fazem desses animais a opção mais lógica para os produtores do Semiárido brasileiro. Tanto que no Piauí, um dos carros-chefe da agricultura familiar no estado é a ovinocaprinocultura. Mas isso não garante automaticamente aos criadores bons preços e acesso aos melhores mercados. A saída foi apostar no associativismo, que aos poucos começa a mostrar resultados, como a maior organização e melhor comercialização da produção.

Com 70 cabeças de ovinos e caprinos, Natividade Vieira Rodrigues conta que a situação dos criadores do município de Queimada Nova (Sul do estado) melhorou muito depois que a comunidade resolveu se unir. Rodrigues é presidente da Cooperativa de Produtores e Produtoras da Chapada do Vale do Rio Itaim (Coovita), que engloba 300 cooperados de 16 municípios da região, e também comanda a Associação de Criadores de Caprinos e Ovinos de Queimada Nova (Caprinova).

Entre as conquistas do associativismo está o melhoramento genético para aumentar o peso de carcaça dos rebanhos. Através de parcerias com outras entidades, os cooperados receberam investimentos de projetos como o Viva o Semiárido (PVSA), que capacitou produtores para fazerem o melhor trato de cabras de ovelhas. O PVSA resultou de um acordo de empréstimo firmado entre o governo do Piauí e o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida). O objetivo é contribuir para a redução da pobreza da população rural do Semiárido por meio do incremento das atividades produtivas predominantes e do fortalecimento organizacional dos produtores.

“O maior desafio pra gente ainda é a falta de assistência técnica. Outra dificuldade é fazer o produtor entender que a propriedade dele é um negócio, e se organizar para fazer as vendas”, diz Rodrigues. Segundo ele, para comercializar o carneiro pelo melhor preço, por exemplo, o animal teria que ser vendido já abatido, mas para isso é preciso ter uma unidade de abate. “Infelizmente é muita burocracia para conseguir um espaço desses. Quando o produtor fica vendendo para o atravessador, acaba perdendo”, afirma.

Natividade Vieira Rodrigues, produtor de Queimada Nova. Com inauguração de abatedouro, renda dos ovinocaprinocultores da região deve aumentar. Foto: Rogério Machado/Gazeta do Povo

Sonho quase realizado

Graças ao trabalho conjunto, o desejo dos ovinocaprinocultores da região está quase realizado. Com o apoio financeiro de um banco público, o tão sonhado abatedouro está em fase de construção e, quando inaugurado, terá capacidade para 100 animais/dia. A instalação vai atender a demanda de diversos municípios no entorno de Queimada Nova.

Rodrigues explica que a unidade vai ajudar a fornecer carne de maneira constante e regular para os mercados consumidores, organizando a produção dos municípios no entorno e melhorando o preço pago aos produtores. Atualmente, para um criador de cabras da região obter uma renda de apenas dois salários mínimos ele precisa ter no mínimo 80 matrizes, conforme o presidente da Coovita.

O Piauí possui 197.246 estabelecimentos de agricultura familiar. Desse total, 53.350 propriedades possuem rebanhos de caprinos, que movimentaram em 2017 perto de R$ 30 milhões – as informações são do IBGE. O Censo Agropecuário também registrou que 47.974 estabelecimentos rurais criam ovinos, cuja economia somou quase R$ 40 milhões naquele ano.

De olho nos vizinhos

Quem está de olho na futura unidade de beneficiamento são os produtores de Betânia do Piauí, cidade vizinha a Queimada Nova. A presidente da Associação dos Criadores de Ovinos e Caprinos de Betânia do Piauí (Ascobetânia), Francisca Neri Bida, conta que os 136 associados conseguem enviar 240 animais vivos por semana a Teresina (PI), onde são abatidos e distribuídos aos supermercados e restaurantes da capital.

Expedição Agricultura Familiar em Queimada Nova no Piauí. Na foto, a produtora Izidora Vieira Rodrigues. Foto: Rogério Machado/Gazeta do Povo

Com a inauguração do abatedouro, diz Francisca, será possível beneficiar a carne dos animais na própria região e enviá-la congelada, agregando mais valor ao produto, e para destinos cada vez mais distantes. A meta é expandir para todo o território nacional, especialmente a carne de caprinos. Um cenário inimaginável na época da criação da Ascobetânia, em 2012.

“Antes da associação, a produção de ovinos e caprinos estava caída, não tínhamos saída para os animais e as pessoas não tinham perspectiva de produção e comercialização. A partir da criação dela, buscamos o melhoramento genético do rebanho, novas soluções para a convivência com a seca e trouxemos novos parceiros”, conta a produtora. A Ascobetânnia comercializa atualmente rebanhos de 30 comunidades rurais da região.

Um animal que antes era vendido a R$ 6,50 o quilo aos atravessadores, por exemplo, sai por R$ 14,50 o quilo para o produtor através da associação. De acordo com Francisca, o plantel de 23 mil cabeças da Ascobetânia movimenta R$ 2 milhões ao ano somente em Betânia do Piauí. A Caprinova, que completou 10 anos e possui 45 sócios, vende mais de mil matrizes por mês e tem ganhado cada vez mais visibilidade no estado. Entretanto, ainda é preciso melhorar o acesso dos produtores à assistência técnica.

Francisco Guedes, diretor-geral do Emater do Piauí, diz que é importante ampliar o trabalho do instituto de extensão rural do estado, com aumento do crédito destinado aos produtores familiares. “O exemplo deles mostra como uma boa capacitação, passando pelo apoio à organização dos produtores para vender bem, é fundamental. Infelizmente hoje não damos assistência técnica a nem 20% da agricultura familiar do estado”, pontua.

Para o engenheiro agrônomo e presidente do Crea-PI, Raimundo Ulisses de Oliveira Filho, ainda faltam investimentos na melhoria genética dos caprinos e ovinos no estado e também uma mudança na visão do negócio da ovinocaprinocultura. “Até então, as pessoas criavam caprinos de forma extensiva pensando no animal como uma poupança. Se eu preciso fazer dinheiro, vou lá e vendo o animal na feira. Hoje está se trabalhando para mudar essa cultura, fazendo o escalonamento da produção, fornecendo o produto com prazos regulares, fazendo cortes de carnes para agregar valor na venda. São elementos que vão impulsionar a atividade na região”, exemplifica.

Para o engenheiro agrônomo e presidente do Crea-PI, Raimundo Ulisses de Oliveira Filho, ainda faltam investimentos na melhoria genética dos caprinos e ovinos no estado e também uma mudança na visão do negócio da ovinocaprinocultura. Foto: Rogério Machado/Gazeta do Povo

 

 

Cortes especiais

Natividade Rodrigues conta que nos planos da Coovita está futuramente produzir cortes especiais no abatedouro, mas por enquanto a cooperativa tem dificuldades para contratar assistência técnica adequada. No entanto, o objetivo é poder contratar agrônomos, veterinários e outros profissionais para dar suporte a toda a cadeia produtiva.

Na opinião de Francisca, que enfrenta os mesmos desafios em Betânia do Piauí, o apoio técnico por si só não resolve quando o produtor não se atenta para a necessidade de adotar boas práticas de manejo e no trato do rebanho. “Não adianta ter o técnico na sua propriedade todos os dias se você não se interessar em aprender e aplicar o conhecimento.”

 

Expedição Agricultura Familiar, em Betânia do Piauí. Foto: Rogério Machado/Gazeta do Povo

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